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Boca de Cena entrevista...Anderson Moreira Sales

Boca de Cena entrevista...Anderson Moreira Sales

Boca de Cena - Anderson, "57 minutos - o tempo que dura esta peça" será sua primeira montagem em São Paulo. Qual é sua expectativa?
Anderson Moreira Sales - Toda a minha formação artística foi no sul do país, lá que eu apresentei minhas peças, lá que eu dialoguei com os espectadores sobre minhas inquietações. Isso foi me formando como artista. Mas, de certa forma, você fica em uma bolha. Agora, eu abro esse leque para entrar em contato com pessoas de outra cidade, em um local muito importante para a cultura do país. Tem essa coisa de ir a São Paulo em busca de sonhos. É algo até romântico. Estou muito curioso pra ver como se dará essa experiência. Espero que a temporada da peça seja tão boa para os espectadores como vislumbro que será pra mim.

BC -
Nos conte um pouco sobre como foi a inspiração em "Ulisses", de James Joyce.
AMS - O primeiro contato que eu tive com o "Ulisses" foi há uns 5 anos, no período em que eu pesquisava performance art para o meu primeiro trabalho solo, o "Lujin". No livro "Performance como linguagem", do Renato Cohen, ele cita a escrita do Joyce como um exemplo de performance dentro da literatura. Fiquei curioso, mas só fui ler o primeiro trecho quando um diretor de teatro amigo meu me trouxe o último capítulo do livro. Sim, comecei pelo final. É apaixonante o capítulo da Molly Bloom, que é uma verborragia pura, sem ponto, sem vírgula. Eu adorei aquilo. Gostava da ideia do Joyce de narrar um dia inteiro na vida de uma pessoa e valorizar aquilo que é mais ordinário. Então, foi um desejo que ficou guardado em algum canto e um dia eu pensava em usar esse estímulo de alguma forma.

BC
- Seu primeiro texto, "Lujin", recebeu o Prêmio Açorianos na categoria Dramaturgia, o mais importante para o teatro no Rio Grande do Sul. Nos conte um pouco sobre essa premiação e o que mudou depois dela. 
AMS - Fiquei muito honrado quando recebi o prêmio. Eu tinha três anos de carreira na época e foi especial vivenciar aquele momento porque havia toda uma conjuntura de fatores que me deixava muito inseguro: eu nunca havia estado sozinho em cena antes, era a primeira vez que optava por escrever a própria dramaturgia e não usar um texto já existente. Então, a sensação que eu tive ao receber esse prêmio foi de legitimidade do meu trabalho. Mas é tudo efêmero. As inseguranças voltam logo em seguida, assim como a necessidade de se provar a cada trabalho. Hoje já entendo essa dinâmica com maturidade. Um prêmio é um carinho dado a um artista em um determinado momento. Talvez seja inteligente pensar que não é muito mais do que isso. 

BC
- Em "57 minutos – o tempo que dura esta peça" você dirige e atua. Como conciliar ambas as atividades? O que é mais desafiador?
AMS - Eu voltei a utilizar a mesma estratégia que usei no "Lujin" ao me dirigir: gravar os ensaios com uma filmadora e depois assistir o que foi criado para me aproximar dessa perspectiva do olhar de fora. Mas é bastante chato trabalhar assim. O que conta a meu favor é que atualmente eu já escrevo imaginando a encenação, isso ajuda quando vou pra sala de ensaio criar as cenas. Mas ainda assim não é prazeroso, porque a melhor coisa do teatro é o encontro. O encontro com o público nas apresentações e o encontro com outro artista é  um processo de criação para gerar uma obra. É o encontro que gera faísca, que dá vida. E essa metodologia pouco proporciona esse estado. Porém, naquele momento eu sabia o que eu queria como dramaturgo, ator e diretor. Assim, essa linguagem me pareceu à escolha certa. No fim é isso, uma questão de escolha. Segui a intuição sobre o que aquele texto parecia pedir.

BC
- A aparente banalidade da narrativa da peça problematiza a realidade contemporânea brasileira em sua cruel complexidade ao reconhecer a grandeza escondida nas pequenas coisas para denunciar a pequenez escondida nas coisas grandes. Como você enxerga a sociedade brasileira atual?
AMS - Acho que o mito do brasileiro cordial, festivo, boa praça caiu por terra nos últimos anos. Algo despertou no país e as pessoas se sentiram à vontade para serem homofóbicas, racistas, xenófobas, machistas e agressivas sem nenhum constrangimento. Um lado bom disso é que agora lidamos com as pessoas como elas realmente são. Talvez a grande revolução agora seja tentar ser o mais inteligente e bem informado possível para superar o momento atual sem cair na polaridade de posicionamentos e sem se contaminar pelo ódio, porque ele é tóxico para ambas as partes.

BC
- Quais são os projetos futuros que poderemos te encontrar nos palcos paulistanos? 
AMS - Eu agora pretendo me estabelecer em São Paulo, pelo menos por um tempo. A tendência é sim que os trabalhos de agora em diante aconteçam em São Paulo. Já existem algumas possibilidades, espero que se concretizem. 

BC
- O que você acha que poderia ser feito para incentivar que mais pessoas passem a ir ao teatro no Brasil? 
AMS - De uma maneira geral, as pessoas não têm hábito de ir ao teatro. É uma questão cultural decorrente de um problema estrutural: a inexistência de uma estratégia política ou institucional que enxergue a cultura e a educação como algo relacionado. E isso não tem nada a ver com doutrinação ideológica ou qualquer bobagem assim. Tem a ver com o entendimento de que uma sociedade com acesso à educação de qualidade e aos produtos culturais gera cidadãos mais críticos e conscientes sobre onde vive, porque vive daquela maneira e com ferramentas para alterar positivamente sua condição. E esse pensamento deveria ser independente de governos de direita ou esquerda. É algo lógico, quanto mais qualificado é o pensamento de uma nação, melhor é o nível da economia, da produção intelectual e científica, das soluções encontradas para os problemas, enfim, melhora a qualidade de vida do país inteiro.Infelizmente, o atual projeto governamental dá as costas para essa perspectiva e inibe o fomento às artes e à educação, por achar e induzir a população à mesma conclusão de que os artistas são seus inimigos. É uma pena. Não para os atuais governantes, mas para toda uma geração que será prejudicada em sua formação intelectual. Porém, há espaços de esperança. Como o Sistema S, que é um exemplo mundial de distribuição e democratização de ações artísticas, esportivas e lazer. Os festivais de teatro que ainda existem são pilares na difusão da produção artística e na formação de plateia.Não há solução pontual, não há uma fórmula mágica. Estamos desamparados nesse momento. Mas seguiremos fazendo a arte de resistência. Inclusive vejo grupos novos de teatro sendo formados nesse momento. Com todo esse contexto conturbado, há uma nova geração de artistas surgindo com energia pra enfrentar esse período difícil. Porque a arte resiste à força dos furacões, dos tiranos, resiste ao ódio e a todo pensamento que vá contra as liberdades e diferenças dos indivíduos. E vai resistir sempre.

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