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Boca de Cena entrevista...Marcelo Lazzaratto

Boca de Cena entrevista...Marcelo Lazzaratto

Boca de Cena - Lazzaratto, a peça “Fronteira” expande a pesquisa sobre deslocamentos humanos iniciada em “Diásporas”, espetáculo de 2017. Conte-nos um pouco sobre esse processo.
Marcelo Lazzaratto - Não sei bem se se trata de uma expansão. Talvez um novo olhar, um outro ponto de vista. Em "Diásporas" realizamos uma abordagem macroscópica e aqui em “Fronteira” fazemos um zoom, buscamos um detalhe, mostramos um instante sobre a questão das múltiplas fronteiras que nos deparamos diariamente e/ou em momentos de exceção.

BC -
Ainda fazendo uma comparação entre as duas peças, como é dirigir 45 atores em cena e chegar a apenas duas, com temas correlacionados e ao mesmo tempo tão distintos?
ML - Em “Diásporas” criamos três culturas, culturas essas nascidas e desenvolvidas a partir da relação com elementos geográficos naturais: o mar, a montanha, o deserto. Tinha um coro de 15 atores em cada cultura, totalizando 45 em cena. Três coros que juntos formavam um coro, com suas distinções e semelhanças. Identificação e alteridade. Esse choque, esse encontro, esse diálogo entre esses conceitos talvez seja o que me guia como criador em todos os meus trabalhos.
  Isso é importante salientar. “Diásporas” dá segmento à pesquisa sobre o Coro, sempre conduzida pela alteridade que nós da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico desenvolvemos desde nossa fundação. O Coro sempre nos interessou e nos desafiou, graças ao sistema improvisacional que desenvolvo há mais de 25 anos chamado Campo de Visão, que traz ao Coro certo protagonismo na criação cênica.    No processo de criação de “Diásporas” tive a nítida percepção de que não adiantava realizar correspondentes cênicos dos acontecimentos mundiais nem das diversas diásporas que estavam acontecendo. Não daríamos conta da realidade, os acontecimentos se mostravam muito mais velozes e intensos. Por isso, resolvemos criar as três culturas e não tentar representar culturas existentes. Não teríamos em hipótese alguma conhecimento de causa para tentar traduzi-las cenicamente. De certo modo, em meus processos de criação escolho antes a metáfora do que a literalidade. E agora, olhando com certa distância, reconheço que essa opção em “Diásporas” foi acertada.   Em “Fronteira”, as premissas são as mesmas. Mas a expressão é bem diferente. Do macro para o micro. Aqui, somente duas atrizes (Tathiana Botth e Thais Rossi) em cena em uma situação de Fronteira. Duas personagens bem distintas - e isso está reforçado na encenação - que pertencem a culturas diversas, são de mundos diversos, mas que estranhamente estão dispostos geograficamente em contiguidade. Pedimos à poeta e dramaturga Carla Kinzo que desenvolvesse essa dramaturgia e ela nos apresentou um pequenino tesouro, com uma sólida circunstância, mas também com muitos indícios, muitas lacunas bem próprias dos poetas, que nos permitem imaginar, correlacionar, enfim, criar sentidos através do jogo cênico.  


BC -
Como você enxerga hoje essa temática de deslocamentos humanos?

ML - Uma questão mundial da maior importância. Se o mundo, de certo modo, prega o livre comércio, por que não a liberdade de ir e vir dos indivíduos? A liberdade é sempre a meta que devemos buscar para todos e qualquer um. A liberdade e a igualdade de condições.   A globalização nos apresenta facetas contraditórias e devemos ter muita sensibilidade diplomática para organizá-las. Se a conexão é global, muros não podem existir. Por outro lado, é importante que as culturas resguardem suas peculiaridades, seus traços distintivos para que tudo não se torne algo padronizado, estigmatizado, pré-determinado pelo mais forte.   A equação difícil que a globalização nos impõe é essa: como ter acesso a tudo sem eliminar a diferença. Difícil porque certamente uma única equação não dará conta de todas variáveis. É preciso que a ideia de fluxo seja constituinte da equação tornando-a sempre outra, sempre movediça, sempre instável e por isso, complexa.   “Fronteira”, de certo modo, pretende de maneira sutil tocar nessa questão. Entender as fronteiras sim como limite geopolítico impeditivo e por isso negativo; e ao mesmo tempo entender Fronteira como espaço necessário para que as distinções, as diferenças sejam reconhecíveis e preservadas. Esse é o jogo difícil e complexo, com variáveis constantes, que as nações, seus governantes e povos terão que jogar se quisermos de fato não sucumbir ao totalitarismo.
 
BC -
Recentemente, você dirigiu espetáculo “Comédias Furiosas” e reestreou como diretor a peça “Romeu e Julieta 80”. São gêneros bem diferentes, qual é mais desafiador? Há algum gênero que mais te desperte o interesse de direção?

ML - Toda criação é desafiadora. Cada uma traz um mistério que tentamos absorver. Cada uma nos apresenta obstáculos deliciosos de serem superados. Uma dramaturgia clássica Shakespeareana ou uma dramaturgia com temas contemporâneos como a de Leonardo Cortez são materiais poéticos e assim devem ser tratados; e quando se trata de material não-dramatúrgico, a mesma coisa – tratados poeticamente!   Creio ser preciso, antes de mais nada, sensibilizar o corpo e todas as suas faculdades para iniciar o trato com os diversos materiais criativos que nos relacionamos. Olhando para trás, percebo que sou um diretor que antes olha para os materiais e na medida que o processo avança procuro descobrir “o como” eles querem ser apresentados.   Por isso que cada peça que eu dirijo tem uma cara diferente. Não trago comigo convicções ou características estéticas especificas e evidentes que determinam de certo modo todas as peças que dirijo. Ao contrário, minha peculiaridade nasce antes da alteridade, são as peças que me caracterizam e dessa relação surge o modo pelo qual seremos traduzidos. E importante dizer: nunca sozinho. Se a alteridade é ao mesmo tempo premissa e modo, todos e tudo envolvidos no processo participam e determinam efetivamente suas características estéticas. Essa talvez seja minha singularidade, uma singularidade que contém o múltiplo, o variado...
 
BC -
Além de “Fronteira”, quais são os próximos projetos em que poderemos contar com sua direção?

ML - Terei o prazer de atuar em uma peça de Bernard-Marie Koltès, “Cais Oeste”, com direção do francês Cyril Déscles, com estreia prevista para 06 de setembro no Sesc Santo Amaro. Além disso, estou dirigindo nesse momento, com estreia prevista para final de setembro e início de outubro, no Espaço Elevador, “Um passeio no Bosque”, do dramaturgo americano Lee Blessing, com Beto Bellini e Gustavo Merighi - texto dos anos 80 que traduz de maneira impecável a atual polarização que estamos vivendo. E, para finalizar, com certa antecedência aviso que em 2020 a Cia Elevador de Teatro Panorâmico completa 20 anos de existência. E para comemorar data tão significativa estamos preparando espetáculo e ações culturais que traduzam nossa pesquisa em linguagem cênica de maneira ampla e compartilhada.

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